HISTÓRIA DA ESTRADA – CARRETEIRA JUSTICEIRA

por Roberto Dias Alvares

Ela representa a beleza da mulher brasileira.
Dirige um bonito Volvo cara-chata.
Se alguém vem lhe falar besteira.
Não titubeia e responde na lata.

Apesar de ser pequena.
De frente, ela encara marmanjo.
Olhar doce, aparência serena.
De tão linda, parece um anjo.

Mas não venham pisar no seu calo.
De bate-pronto, ela devolve de primeira.
Com motoristas homens, anda no mesmo embalo.
É conhecida como a carreteira justiceira.

Mesmo que não seja com ela.
Se vê alguém sendo humilhado.
Chega junto, não dá mole, apela.
Faz valentão ficar calado.

Uma importante empresa de transporte.
Tinha lá um insensato gerente.
Ao ver linda mulher de pequeno porte.
Achou que poderia ser inconveniente.

Cantou descaradamente a menina.
Mesmo casado, a convidou para jantar.
Cantar mulher, para ele era uma rotina.
Dessa vez, a situação dele iria azedar.

Ela descartou o metido a garanhão.
Para a esposa dele deveria ser galanteador.
Ele disse que não era homem de aceitar não.
Machista e com instinto predador.

A menina de forma discreta.
Do celular, ligou o gravador de voz.
Agiu de maneira muito correta.
O gerente queria ficar com ela a sós.

Como não aceitou a investida.
O homem disse que para ela não tinha frete.
A menina ficou enfurecida.
Ela disse a ele: “Comigo ninguém se mete”.

Ela denunciou o metido a conquistador.
Mostrou para o dono da empresa a gravação.
No respeito à sua pessoa dava muito valor.
Não seria conivente com uma traição.

O dono da transportadora foi gentil.
Escutou a carreteira com toda paciência.
Mostrou-se revoltado com o que ouviu.
Contra o gerente tomaria providência.

O tempo passou e a jovem carreteira.
Viu que o gerente continuava na empresa.
Para com ela não mais agia daquela maneira.
Havia algo de errado, tinha certeza.

Começou a perceber a bela carreteira.
Que ao chegar nas transportadoras para carregar.
Transportadores não falavam mais besteira.
Contudo, para ela, frete ninguém queria dar.

Após sair de várias empresas de transporte.
Oferecer seus serviços e receber um não.
Sentiu-se discriminada, mas se manteve forte.
Por dentro, estava apertado seu coração.

Um velho carreteiro, barbas brancas.
Ficou ao lado dela, o lado da razão.
Teve conversa das mais francas.
Sobre o que ocorria, contou a motivação.

“Como ele não conseguiu nada contigo”.
“Estão fazendo com você um boicote”.
Disse o gerente que se tornara seu inimigo:
“Não tem carga até que a marra dela se esgote”.

O velho carreteiro, com boa intenção.
Disse que ela deveria mudar de ares.
É melhor você se afastar dessa região.
Vá viajar e trabalhar em outros lugares.

Sem conseguir frete, mesmo revoltada.
A jovem aceitou ajuda do carreteiro.
Lutava contra injustiça, agora era injustiçada.
Isso lhe causava raiva e desespero.

Trabalhou longe da família.
Aquele carreteiro fez alguns contatos.
Ela tinha orgulho: “Ninguém me humilha”.
“Fui prejudicada mesmo apresentando fatos”.

Como era boa no que fazia.
Logo conseguiu frete em outro lugar.
Que dirigia bem, todo mundo sabia.
Com segurança fazia a carga chegar.

Não abriu mão do espírito de justiça.
Mas colocou a justiça na mão do Espírito.
Fez algo que a muito não fazia: Foi à missa.
Aliviou seu coração que estava constrito.

Dedicou-se a trabalhar e cuidar dos seus.
Esperaria com paciência a justiça Divina.
Pôs sua vida nas mãos de Deus.
Sentia-se livre dentro daquela cabina.

Aquele gerente usava o cargo para tirar vantagem.
Chegou uma hora que acabou se dando mal.
Mulheres, sabendo que uma carreteira teve coragem.
Denunciaram aquele homem por assédio sexual.

O dono da transportadora não escapou.
Fez vistas grossas e acabou pagando caro.
Além do gerente, teve mulher que o processou.
Buscou defesa, mas não tinha amparo.

Quando decidiu que o gerente seria afastado.
O dono da transportadora soube da tragédia.
Seu funcionário, por marido ciumento baleado.
Daquela situação perdeu o controle, a rédea.

Para não perder tudo, decretou falência.
O ex-gerente, sobreviveu ao atentado.
Tarde demais, de seus erros teve consciência.
O que fez não tinha como ser consertado.

Outro empresário assumiu a empresa.
A menina justiceira voltou para perto dos seus.
Que tinha agido certo, sempre teve certeza.
A justiça dos homens falha, mas não a de Deus.

O velho carreteiro amigo dela.
Deu-lhe um importante conselho.
Para não passar por situação igual àquela.
“Quando não for com você, não meta o bedelho”.

“Apesar de se doer por irmãos da estrada”.
“Quem te ajudou quando ficou na pior”?
“Agir por impulso não adianta nada”.
“Cuida da sua vida, e só dela, que é melhor”.

A menina entendeu o que disse aquele senhor.
Eram palavras duras, mas precisava ouvi-las.
Não se exporia mais para não ter dissabor.
Na espera pelo frete não reclamaria das filas.

Apesar de ficar um pouco mais comedida.
Ao ver injustiça, ela não se controla.
Em algum falastrão dá logo uma invertida.
Se for abuso com mulher, ela entra de sola.

Quem a conhece, gosta dela como ela é.
Não finge para agradar quem quer que seja.
A carreteira justiceira é uma mulher de fé.
Com amigos come torresmo e toma cerveja.

Autor: Roberto Dias Alvares

1 comentário

ROBERTO DIAS ALVARES 21/10/2022 - 11:44

Não deixem de ler essa história que valoriza a mulher na estrada

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