J. Pedro Corrêa – Protagonistas

por J. Pedro Correa

Sempre gostei da ideia de que a segurança no trânsito tivesse seus “Pelés e Garrinchas” como referências. Seriam os porta-vozes do setor sempre que necessário. O trânsito sempre foi o patinho feio na história das cidades por representar problemas: congestionamentos, atrasos, sinistros, perdas, dor, etc. Não é que este quadro possa mudar do dia para a noite, mas pode ser atenuado se o olhássemos pelo seu lado positivo e enfatizássemos os benefícios que seus avanços trouxeram à sociedade ao longo de sua existência.

Minha ideia aqui não é fazer a apologia do trânsito, mas ressaltar alguns protagonistas que tiveram papéis de destaque na história do trânsito no mundo. Escolhi três nomes que me marcaram muito nos estudos e acompanhamento que tenho feito sobre a história da segurança no trânsito mundial. É possível até que, por acaso, você não os conheça e neste caso será interessante tê-los como referência.

O primeiro deles, possivelmente bem desconhecido da maior parte da comunidade ligada ao setor, é reconhecido por muitos como o “pai da segurança no trânsito” no mundo. Trata-se do americano William Phelps Eno (nascido em1858, morto em 1945), autor de inúmeras das primeiras inovações em segurança viária e controle de tráfego no mundo nos idos de 1900. Entre as inovações creditadas à Eno estão as primeiras regras de trânsito, o sinal de pare, a faixa de pedestres, a rotatória, a via de mão única, o ponto de táxi e as ilhas de segurança de pedestres. Seu projeto de rotatória foi colocado em prática no Columbus Circle, em Nova Iorque, em 1905, depois no Arco do Triunfo em Paris, 1907, e no Piccadilly Circus, de Londres, em 1926. Foi o autor das primeiras regras do tráfego de rua, em Nova Iorque, desconhecidas até 1900. William Phelps Eno m 1921, criou o Eno Center for Transportation, uma fundação para melhorar a política de transporte e a liderança. Um detalhe incrível sobre sua vida: nunca aprendeu a dirigir um carro. No entanto, recebeu uma carteira de habilitação honorária da prefeitura da cidade de Nancy, França, em 1912.

O segundo nome é Ralph Nader, advogado, ativista, escritor, palestrante americano, mundialmente conhecido em 1965 pela publicação de seu livro “Inseguro a qualquer velocidade” (Unsafe at Any Speed), em que questionava a poderosa indústria automobilística norte americana sobre as mortes de milhares de cidadãos em acidentes de trânsito. Nader mostrou que as fatalidades poderiam ter sido evitadas se os veículos dispusessem de equipamentos de segurança já existentes na época, e que, por razões econômicas não foram instalados. Duas das mais notáveis vitórias de Nader nos tribunais foram contra a General Motors (Chevy Corvair) e contra a Ford (Ford Pinto) nos anos 1960. A repercussão vitoriosa destas duas grandes batalhas serviu para inspirar movimentos em outros países pela segurança no trânsito, um assunto então pouco comentado, apesar dos números horrendos que já produzia. Com a notoriedade ganha pelo trabalho em prol da segurança no trânsito, Ralf Nader por 4 vezes foi candidato à presidência dos Estados Unidos e desta forma conseguiu universalizar sua luta na defesa dos usuários do trânsito.

Meu terceiro personagem, agora no âmbito nacional, é Roberto Salvador Scaringella, fundador e primeiro presidente da CET, a Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo, em 1976. Na época, a capital paulista vivia tempos turbulentos com o trânsito, enfrentando congestionamentos sem fim e, por consequência, críticas de toda sorte. Scaringella, então diretor do DSV (Departamento de Operações do Sistema Viário) convenceu o prefeito Olavo Setubal a criar a CET como forma de enfrentar o caos do trânsito e de criar uma escola brasileira de engenharia de tráfego, no que acertou em cheio. Grande parte dos engenheiros de tráfego que atuam ainda hoje pelo país deram seus primeiros passos na CET.

Scaringela foi, além de presidente da CET (por três vezes), presidente do Contran, Secretário Municipal de Transportes de São Paulo, superintendente do Instituto Nacional de Segurança de Trânsito (INST), diretor Técnico do campus da Universidade de São Paulo (USP) e diretor do Metrô de São Paulo. Em 1994 foi escolhido personalidade mundial em segurança no trânsito pelo Centro Internacional de Recursos de Segurança, Saúde e Meio Ambiente (Sherci), da Universidade do Missouri, sendo o único brasileiro a ter seu busto no Hall da Fama Internacional, na galeria de entrada da sede do National Safety Council, em Itasca, estado de Illinois, Estados Unidos. Morreu em 2013, aos 73 anos deixando uma impagável contribuição ao trânsito brasileiro.

Ao fazer estes registros sobre grandes protagonistas do trânsito – mundial e brasileiro – julgo importante conhecermos um pouco da vida destes personagens a quem tanto devemos e normalmente esquecemos. Agora, que estamos engatinhando no início de uma nova era do trânsito e da mobilidade, com veículos autônomos e elétricos, é salutar não esquecermos os grandes momentos vividos pelo setor e comemorar também suas grandes conquistas.

J. Pedro Corrêa – Consultor em programas de segurança no trânsito
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