Roberto Dias Alvares‏Z-Colunas

HISTÓRIA DA ESTRADA – NATAL DE 2023 NA ESTRADA

Era o primeiro ano pós pandemia.
Muitas perdas marcaram esse período.
Leonel dirigia seu Iveco pela rodovia.
Moravam com ele os filhos Ana e Romildo.

Leonel perdeu a esposa para o covid.
Ainda se adaptava à vida de viúvo.
Para essa dor, não conseguiu dar revide.
Lágrimas deixaram seu olhar turvo.

Seus pensamentos na esposa Ania.
Enquanto dirigia o novo cavalo Iveco.
Deixava para trás potente Scania.
Punha no bolso o bruto sueco.

Foram quarenta anos de casados.
Ela foi companheira honesta e fiel.
Desse lindo amor, dois filhos gerados.
Certamente foi digna de ir para o céu.

Enquanto os quilômetros eram vencidos.
A bordo reinava conforto e tecnologia.
Ele pensava nos belos momentos vividos.
Será que alguém como ela conheceria?

Aquela época de fim de ano.
Muitas pessoas viviam no desemprego.
Passar o natal com os filhos era o plano.
Pela família Leonel tinha muito apego.

Em uma parada de caminhoneiros.
Leonel encostou seu bitrem carregado.
Encontrou logo alguns companheiros.
Na lanchonete pediu pão e um pingado.

Uma mulher entrou no estabelecimento.
Roupa limpa, era simples a vestimenta.
Pedia se alguém pudesse comprar alimento.
Sem trabalho como é que se sustenta.

Ofereceu-se para ali trabalhar.
Tinha que cuidar de dois filhos pequenos.
Crianças, não tinha com quem deixar.
Seu olhar era doce, meigo e sereno.

O proprietário daquele lugar.
Com a mulher ficou incomodado.
Queria dali, ela expulsar.
Vendo-a ali mostrou-se zangado.

Saiu detrás do balcão.
Agarrou a mulher pelo braço.
Deu-lhe um violento puxão.
Colocá-la para fora próximo passo.

Quando iria cumprir ato violento.
Sentiu mão pesada em seu ombro.
Leonel o encarava naquele momento.
O homem olhou-o pasmo, com assombro.

“Esta mulher é minha convidada”.
“Sirva tudo que ela quiser comer”.
Ela olhou para Leonel emocionada.
Não sabia como podia agradecer.

Disse a Leonel o seu nome.
Chamava-se Talita.
Seus dois filhos estavam com fome.
Aparência sofrida, mas era bonita.

Leonel disse que chamasse as crianças.
As alimentasse com fartura.
Os olhos da mulher brilharam de esperança.
Não esperava mais ajuda àquela altura.

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Sentados à mesa os quatro.
Leonel se comoveu com o trio.
As crianças limparam o prato.
O carreteiro, emocionado se sentiu.

Assim que fizeram a refeição.
O carreteiro pagou a conta.
Talita agradeceu-lhe de coração.
Em retribuir-lhe estava pronta.

Leonel embarcou no Iveco.
Deu partida para ir embora.
Solidariedade o coração fez eco.
Como partir deixando-os lá fora?

Perguntou para onde a jovem iria.
Era cidade distante daquele lugar.
Do ex-marido com os filhos fugia.
Na casa dos pais queria morar.

Leonel se compadeceu da mulher.
Com duas crianças, o que ela faria?
“Partir comigo, você quer”?
Para a casa de seus pais a levaria.

A mulher emocionada em prantos.
Aceitou o oferecimento de Leonel.
Cama-leito, crianças se ajeitaram nos cantos.
Para elas ali era um pedacinho do céu.

Partiram e a alegria era tanta.
Que Leonel não teve tempo para tristeza.
Criança feliz, a tristeza espanta.
Do que estava fazendo ele não tinha certeza.

Agiu por impulso do coração.
Não gostava de ver sofrimento.
Sentia-se bem na boleia do caminhão.
Talita mexeu com seu sentimento.

Ela estava ainda desconfiada.
De pegar carona com um estranho.
Mas sozinha e abandonada.
Seu sofrimento era sem tamanho.

Percebeu que Leonel era decente.
E a viagem seguia em paz.
Leonel não sabia porque estava contente.
Só sabia que estar com Talita queria mais.

O Iveco seguia impávido.
Puxando com sobra aquela carga.
De ouvi-la, o carreteiro estava ávido.
Por um instante não sentia a vida amarga.

Ela sofreu ao lado do ex-marido.
Fez de tudo para manter o matrimônio.
Contudo, ele se mostrou um pervertido.
Louco de ser internado em manicômio.

Chegou uma hora que não deu mais.
A vida dela e dos filhos estavam em perigo.
Precisava ter e dar a eles alguma paz.
Agradecia a ele ser um ombro amigo.

Leonel não soube o que dizer.
Passava por momento difícil.
Pela esposa morta vivia a sofrer.
Entregara-se totalmente ao ofício.

Na estrada sentia algum consolo.
Conversava com Deus pedindo paz.
Agora, ao lado de Talita, sentia-se um tolo.
Sentia uma alegria que não achava sentir mais.

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Após entregar a carga no destino.
Com o cavalo Iveco, levou Talita.
Ao chegar na cidade de Ouro Fino.
Encantou-se com aquela cidade bonita.

Estacionou defronte casa humilde.
Leonel ajudou as crianças a desembarcar.
Talita aproximou-se e agradeceu amiúde.
Convidou o carreteiro à entrar.

Um casal de idosos saiu e abraçou Talita.
Eram seus pais que vieram recebê-la ali.
Leonel ficou emocionado com cena bonita.
“Esse é um dos momentos mais emocionantes que vi”.

Com a alma e o coração bem mais leve.
Leonel preparou-se para retornar a casa.
No lugar de até logo, ela disse um até breve.
De felicidade, seu coração extravasa.

Chegou em casa, abraçou os filhos.
Trouxe para cada um, presente de Natal.
Tinha nos olhos faiscantes brilhos.
Alegria daquela familia era plena e natural.

Leonel pensou em Talita.
Ela também nele pensava.
União daquelas vidas, estava escrita.
Reencontro entre eles o destino preparava.

Cada um passou o Natal com seus entes.
No começo do ano planejavam se encontrar.
Só de pensar, ambos ficavam contentes.
Logo começaram a namorar.

Mantendo o respeito no relacionamento.
Leonel não queria apressar nada.
Morariam juntos quando chegasse o momento.
Enquanto isso, o caminhão era sua morada.

O relacionamento evoluiu bem.
Leonel trabalhava intensamente.
Contou aos filhos que queria ter alguém.
A mãe deles estaria no coração eternamente.

Os filhos entenderam seu pai.
Não merecia ficar sozinho.
Solidão, a depressão atrai.
Tinha de continuar seu caminho.

Dois anos depois Talita e Leonel.
Assumiram o relacionando conjugal.
Ele cumpriu de marido o papel.
Duas famílias tornaram-se uma no final.

A bordo do cavalo Iveco ia Leonel.
Não viajava mais sozinho, contudo.
Com Talita em eterna lua-de-mel.
Estar com ela no caminhão era tudo.

Autor: Roberto Dias Alvares 

Roberto Dias Alvares

Casado com uma mulher linda. Pai de filha abençoada. Santista ainda. Escritor e poeta da estrada.

Um comentário sobre “HISTÓRIA DA ESTRADA – NATAL DE 2023 NA ESTRADA

  • História de natal com muito sentimento e amor ao próximo

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