FNM – O melancólico fim de uma gigante




Em Junho de 1985, enquanto algumas revistas ainda divulgavam coloridos anúncios divulgando as virtudes do “Jacaré” – Veículo anfíbio da Iveco utilizado pelo cientista Jacques Cousteau na Amazônia -, um dos diretores da Fiat Caminhões no Brasil, Camilli Donatti, anunciava no Rio de Janeiro, a paralisação das linhas de montagem da empresa.

Reduzidos de cerca de seiscentos para cem, os funcionários da empresa que antes era a poderosa Fiat Diesel, passariam a se dedicar exclusivamente da fabricação de peças para reposição da grande frota Fiat/FNM circulante no Brasil.

Iveco Jacaré

Durante a existência da empresa, que teve os nomes de FNM, Alfa Romeu, Fiat Diesel e Fiat Caminhões, a produção chegou a 57.330 caminhões pesados, 9.129 médios, 6.756 leves e 2.684 ônibus, totalizando 75.899 veículos produzidos de 1949 até 1985.

Entre 1976 e 1978, a Fiat investiu US$ 450 milhões nas linhas de montagem do Brasil, podendo fabricar até 20 mil caminhões por ano e 25 mil motores, numa área de 600 mil M².

Porém, com o montante investido, a empresa italiana esperava resultados imediatos, o que nunca aconteceu. Em 1984, apenas 484 caminhões haviam sido produzidos, e em 1985, até maio, foram apenas 117 unidades. Uma queda de mais de 44% frente a 1984, mesmo com as fábricas do ABC paulistas paradas por conta de greves.

A Fiat chegou a especular a vinda do modelo TurboStar europeu para o Brasil, para tentar salvar a empresa do fracasso, caminhão que poderia concorrer com os novos e potentes caminhões dos concorrentes, como Volvo, Scania e Mercedes-Benz.

Além da retração de mercado sofrida naqueles anos, onde as vendas de caminhões caíram mais da metade, a história da empresa foi marcada por erros de estratégia e diversos equívocos.

A Fábrica Nacional de Motores foi fundada em 1942 para fabricação de motores aeronáuticos radiais Wright, com 450 cv de potência, que seriam usados em aviões de caça e treinamento durante a II Guerra Mundial. Com o fim da guerra e pelo fato dos motores terem se tornado muito obsoletos, a empresa se dedicou à fabricação de refrigeradores e a revisão de aviões equipados com o motor Wright.

Em 1949 foi firmado um acordo com a Isotta Fraschini, da Itália, para fabricação de um caminhão diesel de 7,5 toneladas. Era a chegada ao Brasil do caminhão FNM D-7300, dos quais não sobraram nenhuma unidade. Após a montagem das primeiras duzentas unidades, a Isotta encerrou as atividades.

Em 1950 a FNM fez um acordo com a Alfa-Romeu, para fabricação de outro modelos de caminhão diesel, o FNM D-9000. A produção começou apenas em 1957. Em 1964 o caminhão já era quase 100% nacional, e as vendas correspondiam a 50% do total de caminhões vendidos no país.

Em 1964 calculava-se um total de mais de 20 mil caminhões FNM rodando no país. Pouco tempo depois passou-se a produzir o automóvel JK-2300.

Mesmo naquela época, a empresa estatal era um exemplo de desorganização e excesso de empregados, se tornando um grande “abacaxi”. Relatórios acentuavam a desorganização interna, custos irreais, indefinição de responsabilidades e ineficiência geral.

Estava tudo tão ruim que a fábrica passou a contar com dinheiro do tesouro nacional para sobreviver, e a situação só piorava. Para tentar reverter a situação, a fábrica foi vendida à empresa Alfa-Romeu. Em 1971, os pesados e lentos caminhões D-11000 deram lugar aos FNM 180 e 210, muito mais modernos.

Em pouco tempo a Alfa-Romeu foi absorvida pela Fiat no Brasil. Os planos eram grandiosos, já que o Brasil vivia uma era de crescimento acelerado. A Fiat investiu na fábrica, visando a produção de até 15 mil caminhões por ano.

A Fiat apresentou diversos caminhões no país, como o Fiat 70, pouco tempo depois substituído pelo Fiat 80, o Semipesado 130, também substituído pelo Fiat 140. Vários outros modelos foram cogitados, como o Fiat 260, com 400 cv, o Fiat 160 e até um furgão leve, que nunca chegaram a ser produzidos.

O grande trunfo da empresa seria o Fiat 190H, que também acabou não tendo o sucesso esperado. Em 1980 o controle da empresa passou para a empresa Iveco, também italiana, e surgiu um novo modelo turbinado. Não funcionou.

A queda nas vendas foi grande, e a empresa que pouco tempo antes dominava o mercado estava com apenas 2,5% de participação. No segmento de pesados a participação era de 12% apenas. Os modelos Fiat 120 e 140 saíram de linha por falta de compradores.

Em Junho de 1985 a empresa parou. Estava anunciado o encerramento da produção dos caminhões que antes dominavam as estradas do país. Mesmo com a saída brusca, a empresa negociou e pagou todas as dívidas com os concessionários e fornecedores.

Um volta ao Brasil começou em 1997. Hoje a Iveco está entre as maiores montadoras de caminhões do país, com uma gama de produtos que atendem a todos os setores de transporte, produzindo inclusive veículos militares.

Blog do Caminhoneiro com informações da Revista Transporte Moderno – 1985





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