O 1934 DO JOÃO

por Blog do Caminhoneiro

 

Dezenove trinta e quatro branco e azul.
Por este país, já rodou por todo canto.
Cavalo mecânico, semirreboque baú.
Onde passa, causa admiração e espanto.

E não é para menos,
pois é lindo o caminhão.
Das meninas ganha acenos.
Trata-se do carreteiro João.

A bordo do Mercedes Benz
João não esconde o orgulho.
Cavalo como o dele não tem.
Acelera forte fazendo barulho.

Pelas estradas do Brasil
explorando a potência do motor.
Cavalo como o seu não se viu.
Seu bruto é um primor.

Motor potente, bem equipado
são estes os atributos seus.
Cavalo mecânico trucado.
Zerado os dez pneus.

João estava em Godói Moreira.
Deixou semirreboque carregado.
Seguiria com sua máquina estradeira.
Para Barbosa Ferraz com o trucado.

Pegou estrada vicinal
mas tinha um rio para atravessar.
Uma balsa havia naquele local
e só assim poderia passar.

A balsa do outro lado do rio
Trazia carros de pequeno porte.
De repente João viu:
Parou o motor daquele transporte.

No meio do rio a balsa parada.
O motor não conseguia funcionar.
Era uma situação inusitada.
Mulheres começavam a gritar.

O balseiro pedia calma a cada pessoa
mas a correnteza estava forte.
A situação não era nada boa.
Poderia ser arrastada e causar morte.

Por um cabo de aço a balsa presa,
mas não era garantia de segurança.
Já sofria influência da correnteza
que na superfície parecia calma e mansa.

O carreteiro João pressentiu
que corria perigo aquela gente.
Rolo de grossa corda ali viu.
Tomaria uma atitude urgente.

João amarrou aquela grossa corda
na parte de trás de seu cavalo.
Manobrou-o afastando-se da borda.
De costas para o rio posicioná-lo.

O balseiro saltou na água e nadou.
Veio até a barranca do rio.
A outra ponta da corda levou.
Chegar na balsa de volta conseguiu.

Amarrou na proa da embarcação
e conferiu se estava bem presa.
Com um gesto avisou o João
que puxasse a balsa com firmeza.

O Mercedes dezenove trinta e quatro
arrancou lançando ao ar negra fumaça.
A balsa sentiu o empuxo no ato.
Lentamente deslocava-se aquela massa.

Em cinco minutos a balsa tocou a margem
e aquelas pessoas desceram rapidamente.
Agradeceram a João ressaltando a coragem.
Saíram daquele apuro por sua ajuda somente.

O balseiro que era mecânico também
tinha em sua casa peças sobressalentes.
João aguardou a bordo do Mercedes Benz.
Torcia para o conserto ser feito rapidamente.

Após quarenta minutos de espera
o motor da balsa estava arrumado.
O Mercedes Benz do João, uma fera
em um instante o bruto foi embarcado.

Assim que fez a travessia
João seguiu seu destino.
Um pouco atrasado chegaria.
Mas isso não lhe causou desatino.

Ao chegar em Barbosa Ferraz
atrelou semirreboque graneleiro.
Levaria safra de soja o rapaz
dirigindo seu valente estradeiro.

Chegou ao Porto de Paranaguá
e aguardou a descarga no cais.
Pela BR 376, rodovia do Paraná
já retornava à Barbosa Ferraz.

Voltava com carga valiosa,
Produtos vindos de outros países.
Pela pista com sua máquina poderosa.
João era homem que não negava as raízes.

Apesar de conhecer todo o País
gostava mesmo de viver no interior.
Lá no norte do Paraná era feliz.
Lá esperava encontrar seu amor.

Já passando Ponta Grossa
Com vinte sete toneladas.
No acelerador o pé coça
querendo devorar as estradas.

Mas a polícia rodoviária
fazendo blitz e com radar
dificultando a luta diária
Atrapalhando quem quer trabalhar.

Também o posto de pesagem
Toma tempo e causa atraso.
João supera tudo com coragem
mas precisa chegar no prazo.

Subindo a Serra do Cadeado
presenciou cena tenebrosa.
À noite já tinha chegado
e a lua brilhava graciosa.

Acabara de acontecer acidente
e parecia de muita gravidade.
Parou no acostamento urgente.
Ajudaria como ato de caridade.

Um carro de pequeno porte
atingiu a traseira de um caminhão.
A motorista bateu forte.
Do veículo, uma grande destruição.

Além disso a carga do caminhão
espalhou pela pista.
Causando grande confusão.
Atrapalhando outros motoristas.

Após o carro ter batido
ficou à beira de um precipício.
Risco de lá ja ter caído,
E de acontecer isso havia indício.

A jovem com a perna presa
em meio ás ferragens.
Cena de causar tristeza.
Mais uma de tantas tristes imagens.

O socorro foi avisado
e certamente não se demoraria.
Mas um fato inusitado
aquele salvamento apressaria.

Um incêndio teve princípio
e poderia causar tragédia.
O carro próximo ao precipício.
Do cavalo, João tomou a rédea.

Desatrelou-o rapidamente
e manobrou-o com habilidade.
Pegou uma comprida corrente
e no salvamento deu prioridade.

No para-choque do veículo
e também do seu caminhão
a corrente, um elo específico,
de um com outro fazia ligação.

Puxou com todo o cuidado
para não agravar a situação.
Extintores, o fogo não era apagado.
Arrastou aquela massa de destruição.

A jovem soltou a perna presa
e outros caminhoneiros no auxílio.
Tirada do carro com presteza.
Na pista esparramada carga de milho.

Quando João desceu do bruto
a jovem tinha sido retirada.
Por ter sido um homem astuto
uma vida na estrada foi preservada.

Chegou o socorro logo em seguida
e João aproximou-se da moça.
Não corria risco a sua vida.
O rosto parecia feito de louca.

Mesmo sentindo muita dor
a jovem fez questão de agradecer.
João que fora seu salvador,
emocionado não sabia o que dizer.

A ambulância saiu apressada.
A jovem levada a Apucarana,
João seguiu pela estrada,
afinal seu tempo valia grana.

Era uma hora da madrugada
quando chegou em Barbosa Ferraz.
Boa noite de sono, fisionomia descansada
mas o coração inquieto não tinha paz.

Ficou pensando na menina
acidentada na noite anterior.
Imaginava a triste sina
se dela não fosse o salvador.

Semirreboque graneleiro ficou ali
e João voltou a Godói Moreira.
Na balsa cruzou o Rio Corumbataí
e no bruto chegou a madeira.

Com o semirreboque baú
voltou á cidade natal.
Após duas horas, Jandaia do Sul
chegava em sua casa afinal.

Naquele mesmo dia faria visita,
indo em Apucarana, no hospital.
Queria rever a menina bonita.
e saber estado de saúde atual.

No hospital, foi á recepção.
Soube que ela não estava mais internada.
Após receber dos médicos toda atenção
Pela sua família, para casa levada.

Quando quis saber qual cidade,
a recepcionista não podia informar.
Tinha de manter a privacidade
e a paciente não poderia encontrar.

João ficou desanimado
mas voltou á sua rotina.
No cavalo 1934 trucado
sempre elevava sua estima.

Trocando marchas com precisão
mandando brasa no acelerador.
Mantendo na estrada a atenção,
extraindo toda potência do motor.

As viagens que João fazia
eram momentos de prazer.
Mas enquanto ele dirigia
pensava se a menina iria ver.

Certo dia chegando em Maringá
Semáforo, parou no cruzamento.
Na calçada, viu a menina lá.
Saltou do bruto naquele momento.

Quando o semáforo abriu
o trânsito ficou um caos.
João na direção dela seguiu
Foi xingado por motoristas maus.

Quando a menina o viu
não o reconheceu de imediato.
João de alegria sorriu.
A jovem retribuiu o sorriso no ato.

João contou de onde a conhecia
e a jovem lembrou-se do ocorrido.
Enquanto chorava e agradecia
falou que graças a ele tinha sobrevivido.

A fascinação podia ser vista,
e ambos não sabiam esconder.
A paixão daquele motorista:
Ele não conseguia dela esconder.

Em transe, olhando a menina
Por um instante nada foi dito.
Despertou com barulho de buzina.
A rodovia em um verdadeiro agito.

Ela deu-lhe número do celular.
Ele voltou para o seu Mercedes.
Do cavalo ele não parava de olhar
Para aquele par de olhos verdes.

Daquele dia em diante
João viajava mais feliz.
Indo em qualquer lugar distante
desse imenso País.

Pois quando voltava ao lar
linda mulher o aguardava.
Viajando só pensava em voltar
para os braços de quem amava.

Durante muitos anos a fio
João viajou com seu Mercedão.
Em várias cidades desse Brasil
além da carga, ia com ele sua paixão.

Autor Roberto Dias Alvares

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