UM CAMINHONEIRO TRISTE

por Roberto Dias Alvares

Orlando era homem apaixonado.
Por uma mulher e por caminhão.
Tinha por ambos, sonho dourado.
A bordo do estradeiro levar sua paixão.

Trabalhava sonhando com o futuro.
Desejando comprar seu caminhão.
Para isso, batalhava muito duro.
Economizar era a única solução.

Ele tinha uma amiga a quem amava.
Contudo, seu amor ia além da amizade.
Para Jandira, ele não se declarava.
Como a tratava, ela já sabia na verdade.

Orlando não conseguia disfarçar.
Quando estava ao lado da menina linda.
Seus amigos não queriam comentar.
Ele se transformava quando de sua vinda.

Se tomavam café ou no almoço.
E alguém estava por perto.
Percebia os olhos daquele moço.
Que a elogiaria isso era certo.

Ele e Jandira trocavam confidências.
Tinham um no outro, muita confiança.
Eram pessoas de bem em suas essências.
Ela tão adulta e ele parecendo uma criança.

Um certo dia Orlando abriu o jogo.
Confessou a Jandira tudo que sentia.
Seu coração, ardia como fogo.
Deixar de amá-la ele não conseguia.

Jandira se mostra educada e sincera.
Dizendo a Orlando que não nutra esperança.
Para namorar, homem que ela queria não era.
A amizade poderia se perder pela desconfiança.

Ele entendeu, com o coração apertado.
Tudo faria para não perder sua amizade.
Orlando sonhava tê-la como mulher a seu lado.
Talvez o que atrapalhou foi a diferença de idade.

Ele era bem mais velho do que a menina.
Jandira era jovem, mas mulher tão experiente.
Amá-la por toda a vida, seria a sua sina.
Entretanto teriam de ser amigos somente.

Seu amor estava sendo sufocante.
Orlando se afastaria para ela ter espaço.
Ele tentava, mas pensava nela a todo instante.
Para recomeçar, teria de dar o primeiro passo.

Dedicou-se ao trabalho e a seu projeto.
Pesquisou e encontrou o caminhão que queria.
Sonho iria se tornar algo concreto.
Toda sua motivação, na reforma ele poria.

Era bem antigo esse caminhão.
Haveria muita coisa a ser feita.
Não era gasto, era investir na paixão.
Deixaria aquela máquina perfeita.

Foram muitos meses na lanternagem.
Motor e câmbio foram para a oficina.
Nenhum detalhe ficaria sem checagem.
Deixou impecável aquela cabina.

Cuidou com esmero de cada detalhe.
Afinal o caminhão não seria enfeite.
Ganha-pão para alguém que trabalhe.
Para os olhos, verdadeiro deleite.

A bordo era tanto conforto e luxo.
Que poderia ser considerado acinte.
Muita potência para aguentar o repuxo.
Mercedes Benz LPS quinze e vinte.

Terceiro eixo e rodas de alumínio.
Motor e câmbio, mantidos originais.
A estrada seria seu território de domínio.
Escapamentos cromados e grades frontais.

Sua amiga percebeu o distanciamento.
Só dá valor quando sente que está perdendo.
Achou que nele havia causado sofrimento.
Ligou para saber o que estava acontecendo.

Ele se mostrou extremamente calmo.
Não disfarçou a felicidade que sentiu.
Iria partir, do País conhecer cada palmo.
Viajar por todo esse imenso Brasil.

Ela não demonstrou, mas estava surpresa.
Ficaria sem seu amigo e confidente.
Que Orlando gostava dela, tinha certeza.
Ele parecia feliz, estava contente.

Ele comprou um semirreboque tanque.
Levar querosene em cada viagem.
Carros com poderoso arranque.
Usavam combustível de alta octanagem.

Seriam dez etapas por todo o País.
Em cada estado, uma prova de arrancada.
Ele dirigia um caminhão raiz.
Por carreta, carga inflamável seria levada.

Jandira trabalhava e pensava no amigo.
Ele fez sua primeira viagem a Goiás.
Ia com cuidado, a carga era um perigo.
Ao volante do estradeiro sentia paz.

Ela mandou mensagem por celular.
Orlando não podia responder.
A jovem menina começou a pensar:
“Será que ele conseguiu me esquecer”?

Na verdade Orlando estava concentrado.
Peso da carga não sobrecarregava os molejos.
No caminhão dos sonhos, sentia-se encantado.
Estava ao volante de seu objeto de desejos.

Passou o final de semana em Goiânia.
Partiu domingo à noite, adentrou a madrugada.
Deixando para traz, DAF, Volvo, Scania.
O Mercedes quinze e vinte devorava a estrada.

Ela não quis demonstrar que sentiu falta.
Orlando viajou, agora para o Rio de Janeiro.
Acelerando forte, sua estima em alta.
Sentia-se um grande carreteiro.

A cada viagem, fazia novas amizades.
Em seu coração somente ela, contudo.
Em relação ao trabalho novas realidades.
Orlando se considerava homem sortudo.

Ao chegar, Jandira entrou em contato.
Ele estava cheio de coisas para contar.
Orlando a atendeu de imediato.
Combinaram de sair para jantar.

Orlando buscou-a com seu caminhão.
Ela se maquiava, o amigo chegou mais cedo.
Como mulher, ela não entendia aquela fascinação.
Parecia criança crescida com seu brinquedo.

Colocaram a conversa em dia.
Riram, conversaram, falaram de tudo.
Jandira falava e Orlando a ouvia.
Amava a voz dela, por isso escutava mudo.

Voltaram, cada qual à sua rotina.
Ambos tinham visão vencedora.
Escritório de Orlando era a cabina.
Jandira era uma ótima vendedora.

Orlando viajava e voltava à sua cidade.
Pensava que Jandira lhe daria chance.
Contudo, duro golpe mostrou a realidade.
Ela não mais estaria a seu alcance.

Ela queria contar a seu amigo.
Começou a namorar um rapaz.
Orlando sorriu, coração doído.
Sabia que ela não seria sua jamais.

No dia do casamento de Jandira.
Orlando disse que não poderia ir.
Aquele doloroso golpe o ferira.
Decidiu que pela estrada iria partir.

Ao volante do Mercedes Benz.
Orlando sentia dor e amargura.
No velocímetro ponteiro marcava cem.
Sabia que na estrada, da dor estava a cura.

Amor não correspondido, dor persiste.
Orlando agora transportava de tudo.
Sua fisionomia era de um carreteiro triste.
Viajava sem parar; a fé em Deus, seu escudo.

De Jandira afastou-se no ato.
Era agora uma mulher casada.
Por isso evitou qualquer tipo de contato.
Aquela dor de amor, na estrada foi aliviada.

Orlando conheceu alguém.
Mulher bonita, decente e honesta.
Feliz a bordo do Mercedes Benz.
Ao lado dela, sua vida era alegria e festa.

Não esqueceu o amor do passado.
Entretanto, nada mais havia a ser feito.
Com outro homem ela havia se casado.
Levaria outro amor na cabine leito.

Milena tinha trinta e cinco anos.
Era bem mais jovem que o Orlando.
Casar e ter filhos eram os planos.
Uma bela casa ele foi comprando.

Casou-se e foi feliz com Milena.
Porém, ainda pensava em Jandira.
Em sua mente ela entrava em cena.
Seu coração, por ela ainda suspira.

Teve filhos com a bela Milena.
Levou-a para conhecer sua cidade.
Sua vida se tornou calma e amena.
Sua esposa e filhos, razão de felicidade.

Sete anos após casamento de Jandira.
Orlando tinha uma vida estável.
Visitar sua terra natal, decidira.
Ir de caminhão era o mais viável.

Viajaram com o Mercedes Benz até lá.
Levou a família toda no caminhão.
Voltar à cidade natal, coisa melhor não há.
Ao chegar cresceu sua ansiedade e emoção.

Após visitar casa dos pais.
Saiu de caminhão pela cidade.
Encontrar sua amiga, não esperava mais.
Com a esposa, vivia vida de felicidade.

Reviu velhos amigos do passado.
Se conteve para não perguntar dela.
Sentia-se feliz, estava apaixonado.
Era casado e sua mulher era muito bela.

Após alguns dias, já pensando em partir.
Eis que Jandira veio ver o amigo Orlando.
Ele não sabia, ao vê-la, como iria reagir.
Ela se aproximou e a ele foi abraçando.

Orlando ficou desnorteado.
Ela continuava tão bonita.
Ele ficou ali, paralisado.
De sua boca, nenhuma palavra dita.

Ela já sabia que ele se casara.
E ele nada mais sabia dela.
Seu amor por Jandira, na sua cara.
Situação constrangedora aquela.

Jandira contou que estava separada.
Não combinavam, ela e o ex-marido.
Chegada do filho, relação desgastada.
Separação foi momento sofrido.

Jandira disse que agora estava bem.
Ao filho tinha toda a dedicação.
Não tinha ficado com mais ninguém.
Não tinha tempo para amor e paixão.

Conversaram como antigamente.
Orlando não disfarçava a felicidade.
A lembrança da esposa veio à mente.
Respeitá-la, pois ela tinha dignidade.

Orlando levou-a até sua residência.
Jandira andou no Mercedes Benz.
Manter o controle, era prova de resistência.
Orlando queria ir com ela mais além.

Ajudou-a a descer do caminhão.
Jandira disse em desabafo sentido.
De não ter lhe dado chances, frustração.
Orlando teria sido para ela melhor marido.

Amizade entre ambos, o que resta.
Tarde demais para Orlando e Jandira agora.
Ele beijou carinhosamente sua testa.
Com olhar triste, subiu a bordo e foi embora.

O carreteiro Orlando partiu com a família.
Cumpriria a missão de marido e pai com decência.
Com o Mercedes Benz, vencer cada milha.
Para isso, não faltaria força nem potência.

Jandira procurava saber sobre Orlando.
Para ela, o casamento acabou em desquite.
A bordo do Mercedes Benz, viajando.
Ia um homem apaixonado e carreteiro triste.

Texto de Roberto Dias Alvares

1 comentário

ROBERTO DIAS ALVARES 29/10/2021 - 08:02

Uma história de um carreteiro desiludido com o amor

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