J. Pedro Corrêa – 2 bilhões de carros

Quando falamos de números mundiais, ficamos impressionados pelo seu tamanho, mas não damos tanta atenção a eles talvez porque pareçam estar fora do nosso alcance ou pelo menos longe da nossa capacidade de intervir ou corrigir. Contudo, se tivéssemos melhor consciência ambiental do que este número absurdo representa, certamente pensaríamos diferente e com certeza reagiríamos de outra forma. A sensação que passa é como se estivéssemos rumando para um precipício e não déssemos a menor importância para isto.
Para tentar puxar a conversa para mais perto, pego o exemplo bem próximo de mim: moro em Curitiba que, hoje, tem cerca de 2 milhões de habitantes com mais de 1.600.000 veículos. Em 2030, incluindo os municípios da região metropolitana de Curitiba, seremos mais de 4 milhões de pessoas. Com o crescimento normal da frota de veículos estima-se que cerca de 3 milhões carros estarão rodando pela região, o que dá uma ideia do quanto isto afetará a qualidade de vida da população. Imaginem os congestionamentos, poluição sonora, ambiental e o número de sinistros de trânsito.
Você dirá que até o fim da década já teremos veículos elétricos, veículos autônomos e mais um tanto de tecnologias ao serviço da segurança e do meio ambiente. É verdade, mas não podemos esquecer que não somos um povo educado, com bom comportamento no trânsito, atento aos perigos ambientais e de segurança e sem sinais de mudança de comportamento. A julgar pela indiferença atual das nossas lideranças em relação ao trânsito enfrentaremos difíceis momentos no trânsito, ainda.
Para dar um exemplo, na semana passada fomos surpreendidos por mais um fato que promete deteriorar o já debilitado sistema de segurança no nosso trânsito. Uma medida provisória, aprovada na Câmara Federal, cujo objetivo seria ajudar a renovar a frota de caminhões, acaba com a fiscalização da jornada dos caminhoneiros, o que tem tudo para contribuir para o aumento dos sinistros nas rodovias. Embora não seja fiscalizado como deve, o controle de horas ao volante dos caminhoneiros significa, pelo menos, um aviso que este abuso pode ser punido. Sem a fiscalização…
O que me chama a atenção é o pouco cuidado, a negligência das lideranças em não prover, em não estimular a educação da sociedade para enxergar estes problemas e não incentivá-la a se precaver com cuidados básicos, simples de serem adotados e de eficácia comprovada. Isto custará muito caro ao povo brasileiro mais à frente, quando a conta for apresentada.
Quando falo de descuido de autoridades me refiro a toda a administração e não apenas de governos em qualquer nível: penso nos que lideram entidades de classe, chefes de empresas de qualquer porte, líderes comunitários e sociais, enfim, em todos que comandam segmentos da sociedade e que deveriam estar muito mais atentos aos problemas sociais, econômicos, ambientais deste país e que ficam na espera de que o governo, primeiro, tome providências como se eles não devessem começar dentro de casa.
É surpreendente que em pleno século 21, com tantos avanços em todos os campos do desenvolvimento humano, com novas tecnologias chegando a cada hora, ainda fiquemos na dependência de governos para tomar certas providências. Se este é um problema, visto numa perspectiva nacional, julgo vital no plano municipal que é onde as coisas realmente acontecem. Falta atenção, cuidado, às lideranças municipais.
Em 1979, quando visitei a Suécia pela primeira vez, me surpreendi vendo uma campanha de educação de trânsito ensinando motoristas a dar o pisca-alerta. Passando por Londres, vi a BBC ensinar às donas de casa, pela televisão, a só abrir a geladeira quando houver vários produtos para guardar nela, economizando energia e protegendo o meio ambiente. Se eu vi, tenho certeza de que muitos daqueles que nos governaram e nos governam hoje também viram e perceberam o quanto precisamos levar a sociedade aos bons costumes. Assim deve ser no trânsito também.
Todos somos unânimes, quando viajamos para fora, em aplaudir a organização, o respeito no trânsito em países adiantados, mas ao regressarmos ao Brasil voltamos a ser rapidamente aqueles mesmos brasileiros que estávamos acostumados a ser. O que impede nossas autoridades de montar um plano de longo prazo de educação cívica de trânsito para desconstruir aquele sistema arcaico e de altíssimo custo por um modelo moderno, cívico, respeitoso e que só nos venha a nos encher de orgulho? De novo, a vontade política!
J. Pedro Corrêa – Consultor em programas de segurança no trânsito
jpedro@jpccommunication.com.br
