J. Pedro Corrêa – Cuide de sua cidade

por J. Pedro Correa

Qualquer que seja o resultado das eleições de 2022, ficou claro para mim que o trânsito está entre aqueles que perderam mais uma batalha. Uma vez mais o trânsito não fez parte do cardápio de temas debatidos na campanha deste ano, o que significa que foi olimpicamente ignorado, comprovando a afirmação de que não é prioridade por aqui. Não somos o único país, mas é pena, porque temos sonhos de nação grande, próspera e para isto precisamos de um trânsito à altura.

Algumas reflexões podem ser feitas e ajudam a explicar os porquês da ausência na agenda. Creio, contudo, que mais importante do que chorar o leite derramado, é olhar para a frente e refletir o que pode ser feito para dar a volta e reinserir o trânsito na agenda política do país.

O fato de que nossa sociedade não tem cultura nem educação para o trânsito é o ponto de partida para entendermos por que é tão difícil avançar nesta área. Até pouco tempo atrás era possível ouvir pelo país afora que “acidente de trânsito é vontade de Deus ou coisa do destino”. Talvez ainda exista esta crendice em alguns grotões do Brasil, mas acredito esteja realmente em extinção.

Como trânsito nunca foi ensinado nas escolas e o ensino nas universidades (graduação e pós-graduação) é relativamente recente, é natural que nossas lideranças sociais e políticas tampouco dominem o assunto a ponto de imporem sua inserção na pauta prioritária nacional. Felizmente, há exceções em alguns escalões do governo, mas que não foram suficientes para elevar o tema à uma categoria preferencial.

Por não ser prioridade e por não provocar maior impacto no seio da sociedade, trânsito também é visto pela classe política como algo que “não dá voto” e por isso fica relegado a segundo plano. Aqueles que se interessam pelo assunto até procuram mostrar que, sim, trânsito é importante e pode dar voto, mas até onde sei, ninguém conseguiu se eleger empunhando apenas a bandeira do trânsito e isto vale para os três níveis de poder – municipal, estadual ou federal.

Talvez estejamos entrando numa área um pouco complexa: como explicar que trânsito não é importante se no seu mundo estão áreas tão importantes como automotiva, estrutura viária (construção de estradas, vias urbanas), tecnológica (sinalização, iluminação), educação, só para citar uns poucos setores. Possivelmente esteja faltando capacidade para construir um discurso mais sólido que possa contemplar a importância de todas estas áreas e formatar uma mensagem tão forte que possa convencer políticos e lideranças a defenderem como suas bandeiras.

Disto isto, imagino que você está me perguntando “e daí, o que eu posso ou devo fazer?” e eu respondo: cuide da sua cidade, concentre seus esforços para melhorar o trânsito no local onde você mora. Não desperdice suas energias e esforços para salvar seu estado ou o Brasil porque isto está fora de alcance. No plano local, você pode identificar oportunidades para melhorar o trânsito aqui ou ali. Na sua cidade, você conhece e sabe como contatar lideranças ou técnicos da prefeitura (vereadores) para discutir as melhorias que você vê. Se necessário, junte um pequeno grupo de amigos ou conhecidos para a reivindicação, obviamente com muito mais chances. A conquista de algumas pequenas vitórias mostrará que avanços são possíveis e que uma sequência de êxitos pode oferecer grandes benefícios à sua cidade e ganhar preferência na agenda municipal.

O importante é que cada um de nós, que vemos o trânsito seguro como tema importante para o futuro da sociedade, passemos a dar maior atenção aos assuntos locais, esquecendo a política estadual ou federal. Isto pode fazer a diferença e, enfim, provocar resultados sensíveis e entusiasmar a outros parceiros. Se adotarmos esta posição a partir de agora, tenho certeza de que nas próximas eleições municipais, daqui há dois anos, poderemos ter um discurso mais sólido e bem mais convincente para mostrar à sociedade e aos próprios candidatos. Na verdade, um destes candidatos poderá ser você mesmo(a) que elegerá o trânsito como bandeira e, enfim, mostrará que ele também dá voto. Quer apostar?

J. Pedro Corrêa – Consultor em programas de segurança no trânsito
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