HISTÓRIA DA ESTRADA – O REI DO TAPETE PRETO

Sou um bom carreteiro.
Em confusão não me meto.
Tenho o melhor estradeiro.
Sou o Rei do tapete preto.

Meu caminhão impõe respeito.
Acelero e para trás outros deixo.
Mercedes Benz cabine leito.
Cavalo mecânico com terceiro eixo.

Modelo quinze e vinte, ano sessenta e nove.
Caminhão negro, escuro como um eclipse.
Motor poderoso, como um cometa se move.
A buzina soa como as trombetas do apocalipse.

Esse cavalo mecânico todo negro.
Pelas estradas impõe o terror.
Conduzir essa máquina é meu emprego.
Para qualquer carga, sou transportador.

Semirreboque tanque ou baú.
Prancha, basculante ou graneleiro.
Pelo Brasil, do leste a oeste, do Norte ao sul.
Sou proprietário do mais bonito estradeiro.

A alavanca de câmbio é meu cetro.
Chapéu Panamá minha coroa.
Desse imenso território conheço cada metro.
Irmãos de estrada dizem que sou gente boa.

Quando meu estradeiro acelero.
Pelos escapamentos sai negra fumaça.
Por ser o melhor carreteiro me esmero.
Não é qualquer caminhão que me ultrapassa.

Nas longas retas chego a botina.
Nos declives, embalado eu desço.
Nos aclives, avermelho a turbina.
No retrovisor de outro caminhão eu cresço.

Chego chegando, boto pressão.
Tiro de lado, aí já era.
Deixo para trás qualquer caminhão.
Meu Mercedes Benz é uma fera.

Quando veem meu caminhão à distância.
Caminhoneiros se agitam no assento.
Mantenho a velocidade na constância.
Sabem que vou me aproximar em um momento.

E como anda esse cavalo.
Mesmo carregado é um corisco.
Me acham convencido pelo que falo.
Só eu sei como meu caminhão é arisco.

Das estradas, me considero monarca.
Com meu caminhão, reino absoluto.
Quando no hodômetro cento e trinta, marca.
Puxo as rédeas do meu bruto.

Durante o dia com sol causticante.
Ar condicionado refresca a cabina.
Noite fria, com vento uivante.
Fazer o transporte é minha sina.

À noite sob o brilho da lua.
Rodo, tendo as estrelas por companhia.
Do conforto não há quem mais usufrua.
Venço madrugadas e chego ao romper do dia.

Se em uma cidade um só dia eu passo.
Basta para que uma mulher eu conquiste.
À noite eu a envolvo em um abraço.
No dia seguinte, que eu não parta, ela insiste.

Dou carinho, faço um chamego.
Sou o melhor na arte de amar.
Tem cidade que eu chego.
Já tem uma beldade a me esperar.

Meu coração não tem dono.
Por uma linda mulher, ele pula no peito.
O banco do caminhão é meu trono.
Mostro ser rei do amor na cama leito.

Não tem vida melhor do que a que levo.
Ter até tem, mas não presta.
As dificuldades que tenho, relevo.
Viver bem essa vida é o que resta.

Se o frete que me oferecem não compensa.
Não pago para trabalhar e não carrego.
Muita gente acha que caminhoneiro não pensa.
Vejo quem quer me explorar, não sou cego.

Sou um carreteiro da velha guarda.
Troco marchas e o volante é queixo-duro.
Fico de olho nos coturnos pretos, homens de farda.
Policial corrupto, na estrada eu não aturo.

O Mercedes Benz quinze e vinte.
Rodando em meio aos estradeiros atuais.
Põe no asfalto um toque de requinte.
O que os outros fazem ele também faz.

Querem tirar caminhões velhos de circulação.
E o motorista autônomo, como é que fica?
Sem a ferramenta de trabalho, seu caminhão.
Só vai sobrar transportadora rica.

Tirar caminhão com mais de trinta anos, estúpida lei.
Deixará o transporte de cargas mais crítico.
Se é para tirar alguma coisa, eu direi:
Tira quem tem mais de trinta anos como político.

Caminhão não tem ano, tem dono.
Já dizia um antigo ditado.
Estradeiro bem cuidado eu não desabono.
Tem bruto antigo melhor que zero ou usado.

Na minha carreta o que eu puxo.
Somente a tonelagem que ela suporta.
Caminhão com pneu tão achatado, parece murcho.
É tanto peso que o chassi quebra ou entorta.

Meu Mercedes Benz tem um bom motor.
Debaixo da cabina, respeitosa cavalaria.
Quando chamo ele no acelerador.
A dianteira levanta e mostra sua valentia.

Me considero rei da estrada não por acaso.
Respeito e sou respeitado por onde ando.
Chego no prazo, comigo não tem atraso.
Sou eu no volante e Deus no comando.

Autor: Roberto Dias Alvares

Roberto Dias Alvares

Casado com uma mulher linda. Pai de filha abençoada. Santista ainda. Escritor e poeta da estrada.

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